As “molas” do Vicente

Vicente de Mello foi um presente que o projeto recebeu das mãos do Alberto Saraiva, curador de artes visuais do Oi Futuro. Ele é fotógrafo na sua origem, mas foi transformando a fotografia em instrumento para transformar o olhar de quem contempla seu trabalho.

As imagens que ele cria brincam com uma certa ambiguidade, que provoca o nosso olhar. Elas nunca são o que parecem ser exatamente. Exigem de nós que as decifremos. E como são sempre belíssimas, esse exercício é ao mesmo tempo extremamente prazeroso.

A obra que está na vitrine do espaço externo do Oi Futuro e que foi incorporada ao Cubo, misto de instalação e galeria onde se passa Deus é um DJ, foi batizada por Vicente de “Molas – Death Valley”. Ela exemplifica bem tudo isso: criada originalmente como parte de um trabalho coletivo chamado “Vai e Vem”, coordenado por Mônica Mansur e Claudia Tavares, a proposta era realizar registros na rede ferroviária do Estado do Rio de Janeiro. A foto ao lado é, na verdade, uma foto do velocímetro do painel do trem que, pelo movimento do próprio trem fez com que a câmera se movesse e criasse esse efeito.

Vicente pegou essa foto, imprimiu na mesma técnica que se usa pra fazer esses lambe-lambes de rua e colou em sequência cobrindo toda  a vitrine. Detalhes da impressão do papel, os dedos de quem o manuseou, restos de tinta que ficam na parte de trás do papel e deveriam ser invisíveis, são revelados pela retroiluminação da vitrine. Tudo isso faz parte e dialoga com a própria proposta do espetáculo: a “fabricação” da cena, os efeitos, tudo é exposto. A magia do teatro se dá ao mesmo tempo que seus mecanismos são mostrados para quem assiste. Tudo é espontâneo e milimetricamente calculado, ao mesmo tempo.

Além disso, a obra dialoga tematicamente com espetáculo, pela sugestão de uma paisagem que se estende por toda a lateral direita do espaço, que ao mesmo tempo remete a ondas sonoras de gráficos equalizados. E os desenhos mudam de acordo com as diferenças de cor na iluminação durante a peça, criando efeitos belíssimos.

Conversando com Vicente, ele me contou que pra fazer essa série de fotos do “Vai e Vem” escolheu o mesmo percurso que seu avô, maquinista, fazia todos os dias. Imagino que deva ter sido pra ele uma experiência única, estar no vagão do maquinista onde seu avô esteve por tanto tempo conduzindo um trem.

É, quando o afeto participa da esperiência, com certeza ela se torna mais rica..

Marcos Damigo

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