O bom acidente

Eu e Maria sempre falamos sobre como esse trabalho é um desafio novo pra ambos. Tudo acontece tão no aqui e no agora que ele não resiste a qualquer mínimo engessamento nas interpretações. Parece simples, mas não é. Fazer a mesma coisa todos os dias cria um grande risco de automatização, e no nosso caso isso colocaria tudo a perder!
Daí que pequenos acidentes ajudam a gente a nos descondicionar. Já tivemos vários exemplos: uma senhora abrindo uma bala com aquele barulhinho de plástico irritante, um celular que toca, uma pessoa um pouco mais desinibida na plateia que faz um comentário, tudo a gente usa a favor.
Claro que não buscamos criar acidentes de propósito. Antes da estreia, durante um dos ensaios abertos, queimou o fusível do estabilizador onde ficam ligados todos os equipamentos de vídeo e som da peça. O Maninho, nosso técnico McGyver, levou uns dez minutos pra consertar, e enquanto isso eu e Maria tivemos que “entreter” o público. Foi nosso batismo de sangue. Saímos exaustos da sessão. Mas o público amou. Até hoje tem gente que acha que aquilo acontece todos os dias!
Na sessão de ontem, um desses imprevistos rendeu à Maria um aplauso em cena aberta: uma senhora (que não devia estar gostando muito, diga-se de passagem), pediu pra sair, numa hora em que a gente conversa com o público. Ela alegou que morava longe e que já estava tarde, mas era evidente que o motivo não era esse. Logo depois que ela saiu, Maria perguntou se mais alguém queria ir embora, e o público veio abaixo de tanto rir.
Claro que o ator precisa ter a inteligência e a presença de espírito pra usar essas coisas a seu favor. E isso Maria tem de sobra. Meu próximo projeto será dirigí-la numa stand up comedy, e quiçá ganhar finalmente algum dinheiro.
Enquanto isso, a gente se diverte!

 Marcos Damigo

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