Aos anônimos

Tive a sorte de ter cruzado com alguns mestres pela vida, e espero ainda encontrar outros tantos. Um dos maiores, o terapeuta Roberto Freire, um dia me contou que quando estava dando uma palestra sempre escolhia alguém na plateia pra falar praquela pessoa. Isso, segundo ele, o inspirava a falar mais ou menos as mesmas coisas que ele sempre falava sem sentir tédio.

Pois numa dessas palestras eu fui o escolhido, e isso me rendeu a coragem pra abandonar um curso de Agronomia que já não fazia nenhum sentido e iniciar uma busca que, em última análise, é o que me faz estar escrevendo esse texto hoje. Tinha dezenove anos então.

Corta. Tenho hoje trinta e oito. O dobro.

Me lembrei dessa história ontem, depois que terminou a peça, porque em cena a gente se relaciona muito com a plateia. Olha muito no olho das pessoas. E eu sinto que de alguma forma, intuitivamente, também sempre elejo alguém pra me conectar. De preferência alguém que aceite ser meu cúmplice, ou melhor, cúmplice daquele cara maluco que habita o espetáculo.

Não que os outros espectadores não sejam importantes. Todos são. Até aquele que cochila, e faz a gente ficar pensando num jeito de trazê-lo pra perto de nós (preciso abrir um parênteses aqui: não julgo quem dorme no teatro, eu mesmo já dormi diversas vezes. Cochilei uma vez vendo Pina Bausch, preciso admitir! Mas tenho uma teoria – que talvez não seja nenhuma novidade – de que esse sono no teatro às vezes se impõe porque a peça acessou um canal energético na pessoa que fez com que ela apagasse. Enfim, pode ser viagem da minha cabeça, ou uma maneira que eu arrumei pra não me sentir péssimo se vejo alguém dormindo quando estou em cena. Mas a pessoa está ali, isso é fato. E talvez, sem o escudo da consciência, nosso trabalho em cena mergulhe inclusive muito mais profundamente nela do que no resto todo que está acordado).

Ah, e não vale se a pessoa for sua mãe, cônjuge ou amigo. Esses não fazem mais que a obrigação de estar ali te apoiando e achando lindo o que você faz, mesmo que seja uma catástrofe. O espectador anônimo, que chegou ali por conta própria, é a quem me refiro.

Então dedico esse post a essas pessoas que se sentam na nossa frente com brilhos nos olhos, e nos fazem sentir uma vontade que não cabe dentro da gente de que elas tenham uma noite inesquecível!

Marcos Damigo

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