O conceito de pós-produção de Borriaud

É simples, pessoas produzem obras, e nós fazemos o que podemos com elas, nós as usamos para nós mesmos. (Serge Daney)

Pós-produção é um termo técnico do vocabulário audiovisual utilizado em televisão, filme e vídeo. Refere-se ao conjunto de processos aplicados ao material gravado: montagem, inclusão de outras fontes visuais ou sonoras, legendagem, dublagem e efeitos especiais. Como um conjunto de atividades ligadas à indústria de serviços e reciclagem, a pós-produção pertence ao setor terciário, em oposição ao setor industrial ou agrícola, i.e., a produção de matérias novas.

Desde o início dos anos noventa, um número cada vez maior de ilustrações tem sido criado com base em trabalhos preexistentes; mais e mais artistas interpretam, reproduzem, reexibem, ou usam trabalhos feitos por outros ou produtos culturais disponíveis. Esta arte de pós-produção parece responder à proliferação do caos da cultura global na era da informação, que é caracterizada por um aumento na oferta de obras e pela anexação ao universo artístico de formas ignoradas ou desprezadas até agora. Estes artistas que inserem seu próprio trabalho no trabalho de outros contribuem para a erradicação da distinção tradicional entre produção e consumo, criação e cópia, o readymade e o trabalho original. O material que eles manipulam já não é primário. Já não é uma questão de elaborar uma forma com base num material bruto, mas trabalhar com objetos que já estão em circulação no mercado cultural, quer dizer, objetos que já foram informados por outros objetos. Noções de originalidade (estar na origem de) e mesmo de criação (fazer algo a partir do nada) são borradas aos poucos nessa nova paisagem cultural marcada pelas figuras gêmeas do DJ e do programador, ambos os quais têm a tarefa de selecionar objetos culturais e inseri-los em novos contextos.

(…)

É uma questão de capturar todos os códigos culturais, todas as formas da vida cotidiana, as obras do patrimônio global, e fazê-los funcionar. Aprender a usar as formas, como o artista em questão nos convida a fazer, é acima de tudo saber como se apropriar delas, torná-las suas, habitá-las.

As atividades de DJs, internautas, e artistas de pós-produção implicam em uma configuração similar de conhecimento, que é caracterizada pela invenção de rotas através da cultura. Todos os três são “semionautas” que produzem trilhas originais através dos signos. Cada trabalho é o resultado de um roteiro que o artista projeta para a cultura, considerada a estrutura de uma narrativa que, por sua vez, projeta novos possíveis roteiros, infinitamente. O DJ ativa a história da música por copiar e colar juntando loops de som, colocando produtos gravados uns em relação aos outros. Artistas residem ativamente nas formas culturais e sociais. O usuário de internet pode criar seu site ou sua página e constantemente reembaralhar a informação obtida, inventando caminhos que podem ser registrados e reproduzidos à vontade. Quando iniciamos um mecanismo de busca atrás de um nome ou assunto, uma massa de informação descarregada de um labirinto de bancos de dados é registrada na tela. O “semionauta” imagina as conexões, as relações prováveis entre sites discrepantes. Um sampler, uma máquina que reprocessa produtos musicais, também implica em constante atividade; ouvir as gravações se torna um trabalho em si, que diminui a linha divisória entre recepção e prática, produzindo novas cartografias de conhecimento. Essa reciclagem de sons, imagens e formas implica em incessante navegação pelos meandros da história da cultura, navegação que se torna por si mesma o tema da prática artística. Não é a arte, como disse Duchamp, “um jogo entre todos os homens de todas as eras?”. Pós-produção é a forma contemporânea deste jogo.

Quando músicos usam um sample, eles sabem que sua própria contribuição pode, por sua vez, ser tomada como a base material de uma nova composição. Eles consideram normal que o tratamento sonoro aplicado ao loop emprestado possa, por sua vez, gerar outras interpretações, e assim por diante. Com a música derivada do sampling, o sample não representa nada mais que um ponto proeminente numa cartografia cambiante. É apanhado numa cadeia, e seu sentido depende em parte da sua posição nessa cadeia. Em uma sala de bate-papo online, uma mensagem assume valor no momento em que é repetida e comentada por outra pessoa. Da mesma maneira, a obra de arte contemporânea não se posiciona como o ponto final do “processo criativo” (um “produto acabado” a ser contemplado) mas como um espaço de navegação, um portal, um gerador de atividades. Nós improvisamos na produção, surfamos numa rede de signos, inserimos nossas formas em linhas existentes.

O que une os vários aspectos do uso artístico do mundo sob o termo pós-produção é a confusão dos limites entre consumo e produção. “Até mesmo se for ilusório e utópico,” Dominique Gonzales-Foerster explica, “o que importa é introduzir um tipo de equidade, admitir as mesmas capacidades, a possibilidade de um relacionamento equivalente, entre mim – nas origens de uma organização, um sistema – e outros, permitindo que eles organizem sua própria história em resposta ao que eles acabaram de ver, com suas próprias referências.

Nesta nova forma de cultura, que podemos chamar cultura de uso ou cultura de atividade, a obra de arte funciona como um terminal temporário de uma rede de elementos interconectados, como uma narrativa que estende e reinterpreta narrativas precedentes.

Extraído do livro PÓS-PRODUÇÃO, de Nicolas Bourriaud

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