Carta de Falk Richter

“Eu tinha 28 anos quando escrevi DEUS É UM DJ – nos anos de 1997 e 1998, morava em Atlanta, Amsterdã e Hamburgo e mergulhava na cena dos clubes e djs. Ao mesmo tempo tinha acabado de começar a trabalhar como um jovem artista. Eu queria criar alguma coisa que combinasse música, videoarte, teatro, literatura e a cultura da noite – na época eu sentia que o teatro devia se abrir, fundir-se com o resto do mundo da arte, a street art, a arte da vida, a cultura dos djs, os primeiros passos da internet, mas também deveria usar sua força original que é o contar histórias, criar personagens complexos, e o elemento ao vivo – diferente do cinema ou da internet, nós estamos realmente no mesmo espaço que os intérpretes, nós sentimos sua presença em 3D e podemos interagir de verdade com eles e com as outras pessoas na plateia. Como em tudo hoje em dia, a internet tenta nos oferecer interação e imediatismo, o que na verdade já temos no teatro há mais de dois mil anos. Além disso, eu estava tentando escrever de um modo tão direto quanto a música pode ser algumas vezes – eu queria contar histórias sobre minha vida e meu tempo de um modo direto e imediato, e transportar ideias, fantasias e emoções do modo mais direto que pudesse.Estava ocupado com algumas questões nessa época: o que significa para um ser humano estar online o tempo todo, vender a si mesmo como um produto na tv ou na internet, como criar uma estrela, como criar uma figura cult? Quais são os mecanismos do mercado que os jovens precisam incorporar para se tornarem produtos que eles anunciam e vendem? O que significa ter que vender a si mesmo – e quanto mais autêntico você se torna mais alto será o preço que você alcança no mercado. Há qualquer tipo de vida privada e íntima quando se está constantemente conectado?

E, num nível mais pessoal, só escrevi sobre minha vida ou o que eu esperava que minha vida se tornasse no futuro. Minha viagem pelo Vale da Morte no começo da peça – eu realmente fiz essa viagem e quis escrever sobre ela numa espécie de diário sonoro – para que a plateia experimentasse o trip hop que eu ouvia e que me inspirava – para fazer um monumento em homenagem a certos artistas que eu adorava na época: Bjork, Goldie, Tricky – todos esses criadores experimentais de novas sonoridades – e eu esperava que o teatro – que na época era bastante conservador na Alemanha – também se abrisse e criasse novas linguagens, novos estilos, voltasse a ser experimental e a procurar por novos espaços e conteúdos e formas. A música sobre a qual eu escrevia é um tipo de música que fica num meio caminho entre o experimental e o comercial – você não ouve esse tipo de música no rádio. É muito viajante, parece que o espaço está se abrindo e permitindo que seu cérebro preencha esse espaço com novas ideias e imagens e histórias.

Doze anos depois. É incrível. Até agora minha peça DEUS É UM DJ foi traduzida para mais de trinta línguas e encenada em praticamente todos os continentes do mundo, e segue sendo montada em lugares tão diferentes como Hong Kong, Moscou, Atenas, Copenhague, Kuala Lumpur, Sydney, Praga. Por um lado isso mostra como vivemos em mundo realmente globalizado, e mesmo que cada cultura tenha seus ingredientes locais, ela é majoritariamente parte de uma cultura midiática global produzida pela tv, música pop, grandes corporações comerciais e, obviamente, internet. E deve haver alguns temas em DEUS É UM DJ que apelam para esta comunidade global. Eu suponho que seja a questão de como lidar com todas essas possibilidades que a nova era high tech nos oferece – como não se afogar nela, não se perder, como usá-la criativamente. Como ser um dj que pode simplesmente tocar com tudo que o mundo nos oferece e confeccionar “suas próprias faixas” a partir do material que existe no mundo. Como manter o equilíbrio entre sustentar e lutar contra o sistema – o sistema econômico e político – quando você está no início da sua carreira – quão radical você pode ser como jovem artista – quanto da sua vida pessoal você joga no seu trabalho, quão longe você vai, quão perigosa sua arte irá se tornar – e também como vai sua vida amorosa, sua vida sexual, sua vida privada – o que você quer: o casamento tradicional, o relacionamento aberto e selvagem, você quer filhos agora e está pronto para assumir essa responsabilidade, ou você quer continuar na farra, ou quer se experimentar um pouco mais sexualmente antes que tenha um relacionamento estável ou quer tudo isso ao mesmo tempo – todas essas questões emergem na minha peça – onde estou, agora que não sou mais um adolescente – pra onde vou? Não ser um adolescente num mundo que define a adolescência em algum lugar entre os treze e os quarenta e dois anos. Como eu tento crescer como adulto num mundo em que toda a diversão vai sumir assim que eu me tornar uma pessoa madura? E claro, a questão da REALIDADE. O que é isso exatamente? REALIDADE num mundo midiático? Autenticidade? Existe isso em frente a uma câmera? Um ano depois de lançar minha peça, a Europa foi invadida pelo BIG BROTHER – e as pessoas que nós assistíamos eram todos personagens que alguns roteiristas de tv haviam criado – eles estavam escalando seu elenco no “mundo real”: a loira burra com peitos grandes, o macho clássico com suas políticas de direita, o gay afeminado que só se preocupa com roupas e sexo, o encrenqueiro, o ativista ecológico que irrita todo mundo, a garota que é a melhor amiga de todo mundo mas é meio feia, etc etc. Tudo isso era chamado reality tv, mas não era nada além de uma reação conservadora na maneira de apresentar as pessoas – pessoas “reais” eram de repente forçadas a aparecer na tv como personagens de uma novela – no teatro nós tentamos buscar complexidade – queremos mostrar como um ser humano pode ser complexo, como um relacionamento pode ser complexo – e nesses Big Brothers é mostrado pra nós como os seres humanos podem ser simples e estereotipados. E isso de repente se tornou a tendência política. Toda a Era Bush nos EUA – assim como toda a mídia na Europa que transmite mais ou menos as mesmas coisas que os EUA – estava operando com esses métodos de simplicidade. A política mundial de repente foi vista pela estrutura dramatúrgica de uma novela de tv. O bom e o mau. O nosso lado e o outro lado. Países livres ou o eixo do demônio. Pró-Bush ou terrorista. Então pra mim DEUS É UM DJ foi a primeira peça de uma longa pesquisa que eu fiz também em outras peças sobre os mecanismos da mídia. Isso é o que me interessa: o poder do mundo fala conosco pela linguagem da mídia. Pela mídia eles formatam os cidadãos necessários para permanecer no poder. E eles transformam a democracia através desses novos formatos que eles nos apresentam.

A mídia que nos cerca tem força para nos formatar. Mas nós não percebemos isso a maior parte do tempo. Porque a mídia é divertida, não dói, entretém, e nós não esperamos que o entretenimento dê forma às nossas vidas com tanta força.

Doze anos depois de estrear mundialmente DEUS É UM DJ, a maioria das pessoas – incluindo eu mesmo – vive um estilo de vida facebook. E isso significa que nós falamos uns com os outros na linguagem do empreendimento – da propaganda. No mural do meu facebook eu posto pequenos textos que anunciam eu mesmo – posto fotos no meu mural onde pareço sexy ou interessante ou pequenos comerciais do meu trabalho novo ou fotos que provam que eu tenho uma vida interessante ou pequenos clipes no youtube que provam que eu sou divertido e original e esperto ou politicamente engajado – então é desse jeito que nós nos comunicamos uns com os outros hoje em dia: nós desenhamos nossos perfis que então divulgamos e mandamos pros amigos pequenos flyers comerciais sobre as coisas que fazemos e os convidamos para ver. No Ocidente. Porque o Ocidente não conhece nada além do comércio. Nós não conseguimos mais abandonar esse sistema comercial, estamos completamente atolados nele. Os países árabes agora parecem capazes de usar o facebook de um jeito muito melhor que qualquer pessoa nos EUA ou na Europa: eles usam a rede para lutar contra as forças que os impedem de serem livres. Meu sonho é que os europeus aprendam dos árabes e comecem a usar essas redes de um jeito muito mais político. Estamos enfrentando muita injustiça no Ocidente atualmente. Bilhões de euros estatais estão sendo transferidos para as contas de pessoas que fazem e/ou queimam milhões de euros em especulações agressivas. Países como Grécia, Irlanda e Portugal colapsaram por causa da especulação selvagem da indústria financeira e nós não temos nenhum governo que nos proteja deste mercado financeiro destrutivo. Muito pelo contrário, nossos governantes se tornaram agências que simplesmente repassam o dinheiro das pessoas para os bancos para que os bancos possam continuar com suas especulações. É doente e perigoso e neste momento está ameaçando a estabilidade da Europa – que tem sido a Europa mais sólida já vista na história – e a insegurança e instabilidade que o mercado financeiro cria, direciona muitos eleitores para a extrema direita política – países como Holanda ou Finlândia de repente passaram a ser controlados por partidos fascistas. É realmente assustador. E algo precisa ser feito sobre isso. E nossos políticos não estão fazendo nada, então só resta às pessoas lutarem elas mesmas contra as energias destrutivas do mercado financeiro. Os espanhóis acabaram de começar a lutar. Então esse é o ponto de partida na Europa.

Penso que os anos noventa, quando eu escrevi DEUS É UM DJ, eram tempos mais divertidos, menos políticos, mais otimistas até. Era antes do onze de setembro, antes dos tempos de Guantânamo Abu Gharib George Bush Halliburton, a época pré-crise financeira mundial, pré-revolução árabe, pré-Fukushima, pré-declínio da União Européia. Era mais sobre experimentar formas e sons, arte, teatro, cultura de dj, êxtase e special k, o clube era, como Faithless escreveu, “my church. This is were I heal my hurts” (minha igreja. Aqui é onde eu curo minhas feridas).

Toda a tecnologia que eu descrevo na peça evoluiu, e nós temos muito mais tecnologia em nossas vidas do que há doze anos atrás: e-mails, facebook, twitter, youtube, celular, ipad, itunes, lojas virtuais, sites de relacionamento, sites de sexo. De algum modo as questões que eu levanto em DEUS É UM DJ permanecem as mesmas: como nós podemos usar toda essa tecnologia de um modo construtivo e criativo e como podemos nos prevenir de sermos esmagados por isso e terminarmos como os personagens de MATRIX que não têm vida fora do mundo virtual. Como nós ainda podemos nos encontrar e nos comunicar no mundo off-line e perceber alguma coisa que seja forte a ponto de nos sentirmos vivos.

E com todas essas tecnologias avançando, as possibilidades técnicas de mesclar o real e o virtual se tornaram tão avançadas, que as pessoas não sabem mais em que imagens confiar, que fotos são photoshopadas, que afirmação é falsa ou verdadeira – então confiança é um grande tema – e em DEUS É UM DJ eu brinco muito com a nossa incapacidade de diferenciar entre o falso e o real, o construído e o autêntico.

Os anos noventa eram políticos de um outro modo. Os noventa foram o resultado radical dos oitenta – a época de Tatcher e de Reagan – dois dos piores políticos desde a Segunda Guerra. Tatcher queria destruir a ideia de uma sociedade solidária – ela queria a metralhadora egóica da não-solidariedade neoliberal – ela afirmou claramente: “Não há sociedade, só há indivíduos.” E Reagan era só um ator reacionário contratado pelos neoliberais para dar uma face sorridente à sua política desumana, que de uma maneira chocante fez os ricos muito mais ricos e os pobres muito mais pobres. Uma espécie de revolução dos ricos que lutavam contra os pobres e venceram a luta de classes. Os oitenta e os noventa foram o momento do homem só, egoísta, não-solidário, que não fazia parte de nenhum grupo ou rede de pessoas e que iria apenas lutar por sua própria carreira. Pelo menos foi esse o caso na Europa Ocidental e nos EUA. Então a solidão do meu personagem dj quando ele dirige pelo Vale da Morte mostra que – ele escapa por essa paisagem sonora, esse outro mundo, como se ele não quisesse mais fazer parte do mundo real, que é insuportável. Ele não é engajado politicamente, coloca sua energia na criação de mundos virtuais. Eu posso imaginar que os países latino-americanos nunca desistiram totalmente da solidariedade e da comunidade como nós fizemos por aqui. É muito difícil de acreditar, mas é real: não há mais nada muito parecido com comunidade na Europa – há apenas metralhadoras egóicas que lutam por seu próprio interesse e que estão morrendo de medo de perder o status social que alcançaram ao longo dos anos. E a vida noturna dos anos noventa era de certo modo o facebook off-line de hoje. Era uma maneira de conectar, socializar, trocar impulsos criativos, fugir do mercado comercial para suspender por uma noite o estresse de batalhar pela sua carreira. Porque esse era o modelo daqueles tempos: o gerente bem-sucedido que luta por seus próprios interesses.

Eu acredito que com as novas tecnologias estamos começando a ter uma nova geração de pessoas trabalhando em rede. Pessoas que querem a consciência coletiva – que querem trabalhar e operar em grupos estruturados em torno de interesses abertamente não-hierárquicos. Que peguem a ideia do facebook e tragam para o mundo real – estejam conectado, sejam uma rede. E isso é bom. E, como eu disse antes, espero que todos percebam que eles não têm só que postar um vídeo engraçado no youtube, ou postar o que eles jantaram, eles podem usar essas redes para lutar por seus direitos: um bom trabalho, um governo melhor, melhores salários, um lugar pra viver, um sistema econômico melhor – e melhores maneira de lidar com nosso meio ambiente e equilibrar o poder econômico em um mundo mais justo. E, claro, deveriam ainda encontrar tempo para o mundo off-line e ouvir música além da Britneymerda comercial, dançar, sentir um ao outro, ver um ao outro, conectar-se num nível mais profundo e, se sentirem vontade, fazer música, arte, teatro, protesto, amor ou tudo ao mesmo tempo, e criar um mundo no qual eles desejem viver. E se minha peça DEUS É UM DJ puder ajudá-los a se inspirarem, eu estou mais que feliz!

Falk. Berlim, 10 de setembro de 2011″

* tradução Marcos Damigo e Fernanda Damigo

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3 Respostas para “Carta de Falk Richter

  1. Extremamente acadêmico, e inteligente, é óbvio… ainda que eu não esteja inserido nessa esfera do conhecimento e da arte.

  2. Pingback: Marcos Damigo e as pertinentes discussões de “Deus É um DJ” na era da superexposição | Dirceu Alves Jr. - Na Plateia·

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